4º Caminho

Tem esse nome, porque propõe um trabalho interior que congregue o mental (do ioga), o corpo (do faquir) e o emocional (do monge), de forma a harmonizar os três, num ser que seria o chamado “Homem n° quatro”.

Para muitos seguidores, evolução é evolução da consciência. E o trabalho sobre a atenção, considerada como uma semente da consciência, tem uma ênfase enorme no Quarto Caminho.

Uma das premissas é que o homem usualmente é um ser mecânico, pois que é composto de muitos “eus”. Somente a observação de si ao longo do tempo e de um trabalho assistido pode conduzir ao reconhecimento dessa condição e ainda a um trabalho consistente para mudá-la.

Essa questão dos diversos “eus” é exposta na “Parábola da carruagem”. O amo (ou passageiro) já tem uma “consciência de si” e a partir desse estado harmonizado, conquistado a duras penas, pode desenvolver corpos mais sutis (que têm um pouco a ver com os sete corpos expostos pela Teosofia, conquanto com algumas divergências – v. “Em busca do milagroso”, de P. D. Ouspensky).

Diversos métodos são utilizados no trabalho prático, um deles sendo o dos “movimentos”, que, como o nome indica, são movimentos feitos sob coordenação de um instrutor, visando um “abrir mão” do controle do mental, de forma que uma atenção mais sutil, harmonizando os três centros, possa “comandar” a execução dos movimentos, sem que um deles isolado (corpo, mental, emocional) interfira. Existem movimentos especiais, elaborados pelo sr. Gurdjieff (que já mencionei anteriormente: seus seguidores se acostumaram a chamá-lo e a se referir a ele assim), que visam desenvolver energias mais sutis, que podem então se consubstanciar durante uma prática. Dá pra se ter uma noção disso no filme “Encontros com homens notáveis”, levado ao cinema com muita qualidade e expressividade por Peter Brook.

Há também a prática da meditação, que busca um “domínio” (maîtrise) sobre o fluxo constante do mental (inferior), de forma que um silêncio (cada vez mais profundo e tranqüilo) possa colocar o praticante em contato direto com seu ser (depois mestre) interior . O trabalho se desenvolve não só em grupos de estudos e práticas em conjunto, mas também na vida do dia-a-dia, quando o participante deve “observar a si mesmo” e “controlar a manifestação de suas emoções negativas”. Controle e domínio, nestes casos, têm mais a ver com o sentido que os orientais vêem nessas palavras, cujo significado na prática não implica algo negativo.

Há ainda trabalhos especiais em grupo, quando as personalidades dos alunos são colocadas em confronto direto, de forma que cada um possa observar a si mesmo em condições de convivência especial e quando muitas vezes o abuso (no sentido do cansaço) do corpo físico pode liberar energias sutis.

O sr. Gurdjieff costumava dizer (segundo se comenta a respeito) que o trabalho interior pode levar a um nível mais sutil numa só vida, mas não li nada a respeito que confirmasse essa “lenda”. Ele insistia bastante na noção do “aqui-agora”, de forma que as questões de reencarnações, karma e livre-arbítrio não eram muito enfatizadas.

Comparando – ou confrontando, no bom sentido, — seus ensinamentos com outros que segui ao longo dos anos, considero que a “‘personalidade” se forma ao longo de muitas vidas, sendo um tanto quanto complicado o seguidor entrar em contato com ela. O sr. Gurdjieff colocava seus alunos em contato com seu “traço principal”, que seria o “nó” da “personalidade” que cada um de nós tem. Mas seus ensinamentos em si transmitiam mais a dicotomia de essência e personalidade, no caso sendo esta a formada numa única vida. Para a Teosofia, segundo Alice Bailey, teria a ver com o “espelhismo”.

Embora o sr. Gurdjieff tenha tido problemas com um de seus alunos (que se desligou dele G.), P.D. Ouspensky, foi este quem escreveu o livro que se considera a “Bíblia” do Quarto Caminho = “Fragmentos de um ensinamento desconhecido” ou “Em busca do milagroso”. Quando eu fazia parte de um grupo, aqui em São Paulo, estudávamos repetidamente esse livro, que de fato contém a maior parte dos ensinamentos. Entretanto, o próprio sr. Gurdjieff escreveu alguns livros, com conteúdo “mais esotérico”, dos quais um é muito cifrado, chamado “Tales of Belzebub to his grandson“.

Uma parte central dos ensinamentos, contida no livro citado do P. D. Ouspensky, diz que o homem se alimenta praticamente através de : respiração, alimento físico e impressões. As impressões implicam as emoções e, quando o praticante já atingiu um determinado nível mais sutil, ele passa a trabalhar no que se chama o “segundo choque consciente”, que tem a ver com uma transmutação profunda das emoções, a qual leva a uma alimentação dos níveis mais sutis do ser. O ser totalmente desenvolvido é o “homem número sete”, que atinge a imortalidade verdadeira (eterna).

A aquisição do “corpo astral”, que tem a ver com o nível de mesmo nome dado pela Teosofia, possibilita “apenas” uma imortalidade relativa, que eu prefiro chamar de “sobrevivência no mundo astral”, que tem muito a ver com o que os espíritas pregam (talvez mais no Brasil, já que o ensinamento original de “Alan Kardec” provavelmente propunha níveis mais sutis, à maneira da própria Teosofia).

A “verdadeira imortalidade” parece adquirir interpretações diversas nas várias Escolas, mas uma coisa realmente sobressai = o preço a se pagar por ela é muito, muito alto. No Quarto Caminho se considera que o “Homem n° sete” (que corresponde ao topo da escala humana) atinge tal imortalidade…

Fonte: http://www.cyberia.com.br/cyblog/